(para aplicação à paleoantropologia e zooarqueologia)
O que é o sistema taxonómico?
A taxonomia é a ciência e a prática da classificação. O sistema taxonómico que utilizamos actualmente para a classificação de todos os seres vivos tem origem na obra de Carl Linnaeus (Suécia, 1707-1778), mais concretamente na 10ª edição da sua obra Systema Naturae, datada de 1758.
Os taxa principais são a Espécie, o Género, a Família, a Ordem, a Classe, o Filo (animais), o Reino e o Domínio. Trata-se de uma organização hierarquica em que a unidade de classificação mais específica é a espécie. As espécies, por sua vez encontram-se agrupadas em géneros (i.e., um grupo que agrega espécies semelhantes), ao que se segue o agrupamento destes em famílias, estas em ordens, e em diante até ao taxon mais abrangente e heterógeneo, o domínio..

A hierarquia da classificação científica dos seres vivos. (Fonte: Wikipedia.)
O sistema de Linnaeus é também conhecido como o sistema de nomenclatura binomial, pois uniformiza a classificação dos seres vivos em dois nomes: no nosso caso, somos Homo sapiens. Homo corresponde ao nosso género e sapiens à nossa espécie (outros exemplos: Oryctolagus cuniculus ou Crocuta crocuta). Existem ainda subdivisões das categorias acima enunciadas, como a superfamília, a subordem ou a subespécie.
Quanto às subspécies, em paleoantropologia é raro existirem, uma vez que os vestígios que esta disciplina estuda são fósseis e difíceis de classificar a um nível tão detalhado. Contudo, quando tratamos de seres actualmente existentes (e que podemos descrever e analisar detalhadamente), a subespécie é uma categoria normalmente utilizada.
As regras da nomenclatura taxonómica
Um dos objectivos da nomenclatura binominal de Linnaeus era estabelecer, para cada ser vivo, uma denominação única, que pudesse ser utilizada por todos os investigadores, qualquer que fosse a língua utilizada. Em Portugal, o nome-comum navalha, canivete, navalheira, lingueirão e langueirão pode ser utilizado para as espécies Solen maximus ou Ensis ensis. Agora imaginem a quantidade de nomes para estes animais se lhes juntarmos os nomes-comuns em inglês, francês, castelhano, etc. Assim sendo, para sabermos exactamente de que ser vivo falamos é-lhe dado um nome único, composto pelo género e a espécie. Ou seja, utilizamos o sistema binominal que permite diferenciar todas as espécies e identificá-las independentemente da língua do investigador.
A este propósito convém explicar também que as regras fundamentais de atribuição de um nome científico são determinadas por códigos internacionais. No caso dos animais essa atribuição é regida pela Comissão Internacional da Nomenclatura Zoológica (International Commission on Zoological Nomenclature - ICZN) e, de entre as suas regras, algumas devem ser realçadas:
- As designações dos taxa devem preferencialmente ser feitas em latim. O grego antigo pode ser utilizado nos taxa superiores (ex. domínio Eukaryota).
- O nome das espécies tem duas palavras (nomenclatura binominal). A primeira é um substantivo com maiúscula inicial e define o género a que o ser vivo pertence — trata-se do epíteto genérico. A segunda palavra — o epíteto específico — adjectiva a primeira, descrevendo uma característica particular da espécie, e é escrita com minúscula inicial. Alguns exemplos: Homo habilis (ou seja, homem + habilidoso) ou *Bos primigenius * (ou seja, boi + primitivo).
- No caso de não sabermos qual é a espécie, mas tão somente qual o género, utiliza-se a abreviatura sp. Por exemplo: Canis sp. pode referir-se ao Canis lupus (lobo) ou ao Canis familiaris (cão).
- Quando na presença de várias espécies do mesmo género e/ou quando a identificação dessas espécies é desconhecida, usa-se a abreviatura spp. Assim, se nos quisermos referir a várias espécies de lapa, a denominação poderia ser Patella spp.
- Os taxa cima da espécie são uninominais: uma única palavra, com inicial maiúscula, representativa do plural. Exemplo: “Os Hominini aparecem em…”, “Os Crustacea são animais que…”
- Quanto às subespécies, acrescentam um terceiro nome (escrito com minúscula inicial) ao sistema binominal. Por exemplo, Homo sapiens sapiens é a nossa subespécie.
- Os nomes dos taxa animais têm regras para a sua terminação. A família, por exemplo, deve terminar em -idea, como Hominidea, Bovidea, Leporidea, etc. Abaixo apresenta-se uma tabela com essas terminações.
| Terminação | Exemplo | |
| Superfamília | -idae | Hominoidae |
| Família | -idea | Hominidea |
| Subfamília | -inae | Homininae |
| Tribo/Infrafamília | -ini | Hominini |
| Género | - | Homo |
| Espécie | - | Homo sapiens |
Regras de terminação das designações do taxa inferiores
- As designações dos géneros, espécies e subespécies são escritas em itálico. No caso de documentos manuscritos devem estar entre aspas ou sublinhadas.
- Os nomes das espécies e subespécies podem ser acompanhados pelo nome, ou abreviatura do nome, do cientista que primeiro descreveu e publicou o taxon em causa e o ano dessa publicação. Por exemplo: Canis familiaris, Linnaeus 1758; Pollicipes pollicipes, Gmelin 1789; Homo erectus, Dubois 1892.
Para saber mais:
- International Code of Zoological Nomenclature (2000). Alojado no website do International Commission on Zoological Nomenclature.
- Classification of Living Things. Pelo Dr. Dennis O’Neil do Behavioral Sciences Department do Palomar College.
E ainda:
- Encyclopedia of Life. Uma listagem exaustiva de grande parte dos seres vivos conhecidos.
- The Tree of Life Web Project. Informação sobre biodiversidade, as diferenças dos diferentes grupos de organismos e a sua história evolucionária.
- O Livro Vermelho dos Vertebrados de Portugal. Do Instituto de Conservação da Natureza, pretende listar todos os vertebrados existentes no território português (continente e ilhas).
Maria João Valente
Página actualizada a 19-06-2011