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3. HISTÓRIA
DA OCEANOGRAFIA PORTUGUESA |
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| 3.1. Das Descobertas a D. Carlos I |
mod. Mar02 |
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Durante o período das Descobertas,
além dos elementos cartográficos e batimétricos,
os navegadores portugueses anotavam observações
meteorológicas e oceanográficas. Aliás, os
comandantes dos navios tinham instruções específicas
do Infante D. Henrique para procederem a observações
específicas que pudessem facilitar as navegações
posteriores.
Embora carecessem de sistematização
científica (rudimentar na época), o conjunto dessas
observações ia permitindo traçar um quadro
geral que, todavia, na maior parte, tinha cariz sigiloso imposto
pela competição entre as potências navais
da altura. Refere-se, a título de exemplo, a famosa "volta
do largo" seguida pelos navegadores portugueses para atingirem
a parte setentrional de África e dobrarem o Cabo da Boa
Esperança, e que tirava proveito do regime de ventos dominantes
e das correntes do Atlântico Sul.
Algumas dessas observações são
bastante curiosas e, mesmo, por vezes, enigmáticas. Nesta
classe insere-se a tentativa de determinação de
profundidade, no oceano Pacífico, efectuada por Fernão
de Magalhães na sua viagem de circum-navegação
(1519-1522), utilizando uma linha de sondagem com apenas 100 ou
200 braças. Segundo Ross (1982), não tendo atingido
o fundo, o navegador concluiu estar, provavelmente, na parte mais
profunda do oceano
Não é fácil, actualmente,
aquilatar da globalidade do volume e nível de conhecimentos
adquiridos pelos navegadores portugueses pois que, na altura,
havia uma estratégia de concentração de informação
em locais específicos e, presumivelmente na maior parte,
essa informação perdeu-se devido a incêndios.
Com a emergência de novas potências
navais e o declínio da hegemonia portuguesa, as actividades
de índole científica no mar, desenvolvidas por Portugal,
rapidamente esmoreceram. A breve trecho a ciência portuguesa
transformou-se de influenciadora em influenciada pela que era
praticada pelas potências emergentes. Na sequência
de crises políticas e sociais, o estudo do mar, em Portugal,
quase estagnou, salientando-se apenas o trabalho desenvolvido
individualmente por alguns cientistas, de entre os quais é
justo realçar o do zoologista José Vicente Barboza
du Bocage (1823-1907). |
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Bocage conseguiu cativar o interesse da comunidade
científica europeia com algumas das suas publicações,
designadamente com a descoberta e descrição da esponja
de águas profundas Hyalonema lusitanica Bocage que,
em 1864, foi objecto de uma primeira comunicação
à Zoological Society of London. É de referir que,
na altura, a ocorrência de Hyalonema era apenas conhecida
no Japão, nunca tendo sido encontrada em águas europeias.
Na sequência do interesse suscitado por esta descoberta
e da cooperação estabelecida entre este cientista
e colegas estrangeiros, designadamente britânicos, verificou-se
o desenvolvimento de vários trabalhos na margem portuguesa,
podendo referir-se, entre outros, os que foram efectuados, em
1868, por Edward Perceval Wright, a convite de Bocage e, em 1870,
por William Saville Kent, no Norna, e por Gwyn Jeffreys,
no H.M.S. Porcupine.
Quer Wright, quer Kent, vieram especificamente
a Portugal para investigar melhor a esponja aludida. Efectivamente,
na época, e partindo do princípio de que a luz solar
não poderia penetrar na água mais do que algumas
centenas de metros, predominava a teoria de Forbes, segundo a
qual o oceano estava dividido em duas zonas, uma superior, da
superfície até cerca de 550 metros de profundidade,
na qual existia toda a vida oceânica, e outra inferior,
que se estendia até ao fundo, completamente azóica.
Todavia, verificava-se grande polémica sobre o assunto.
Neste contexto, não é de estranhar que a esponja
descoberta por Barboza du Bocage, que ocorria a profundidades
bastante superiores às admitidas para a existência
de vida no oceano, tivesse congregado o interesse da vários
cientistas e suscitado o desenvolvimento de trabalhos específicos.
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- Bocage
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A descoberta de Hyalonema em águas
portuguesas foi objecto de acesas polémicas, nomeadamente
com John Edward Gray, que originalmente (1835) tinha descrito
exemplares de Hyalonema enviados do extremo oriente, considerando-os
coraliários, e com o microbiologista Christian Gottfried
Ehrenberg, que não acreditava que organismos tão
idênticos pudessem ocorrer naturalmente em áreas
opostas no mundo, isto é, no Japão e em Portugal.
As suspeições deste cientista alemão, que
punha mesmo a hipótese de Barboza du Bocage estar a ser
alvo de mistificação premeditada, forçou
o investigador português a desenvolver trabalho complementar
no sentido de encontrar mais exemplares desta esponja, bem como
a concretizar colaborações com outros cientistas
que confirmassem e credibilizassem a sua descoberta.
Na realidade, o primeiro exemplar descrito por
Bocage tinha sido recolhido, em 1863, por um pescador de tubarões
de Setúbal. Dadas as polémicas (e as suspeições)
existentes, o cientista português tentou, através
dos seus contactos em Setúbal, obter mais exemplares de
Hyalonema, tendo conseguido, no ano seguinte, mais dois
exemplares. Investigações complementares revelaram
que a ocorrência de exemplares desta esponja, localmente
designados por "chicotes do mar", não era rara
nas águas portuguesas, vindo com alguma frequência
nos anzóis dos longos fios de pesca dos pescadores de tubarões.
A polémica só terminou quando Wright se deslocou
a Portugal, a convite de Bocage, e em 7 de Setembro de 1868, num
barco de pesca de tubarões, dragou vários exemplares
desta esponja em fundos lodosos localizados entre 400 e 500 braças
de profundidade, a cerca de 30 milhas a su-sudoeste de Setúbal.
Exactamente na mesma altura, isto é, a 6 de Setembro de
1868, no Mar do Norte, Wyville Thomson, a bordo do Lighning,
encontrava outros exemplares de Hyalonema (bem como várias
outras espécies novas de esponjas vítreas) em dragagens
efectuadas em fundos lodosos a 530 braças de profundidade!
A ocorrência de Hyalonema em águas
portuguesas, bem como a expectativa (plenamente confirmada) de
descobrir outras espécies de águas profundas, foram
as motivações principais dos cruzeiros científicos
realizados na margem portuguesa em 1870, quer por William Kent,
no Norna, quer por Gwyn Jeffreys, no H.M.S. Porcupine.
Em ambas a colaboração com Barboza du Bocage se
revelou extremamente importante.
Nos anos seguintes vários outros navios
efectuaram trabalhos ao longo da costa de Portugal, designadamente
o "Travailleur" que aqui desenvolveu actividades, dirigido
pelo naturalista Mune Edwards. |
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- Hyalonema
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