2. HISTÓRIA DA OCEANOGRAFIA
   
 2.4. O Nascimento da Oceanografia Moderna
Mod.Mai00
 

Embora se tenham realizado numerosas expedições oceanográficas entre 1850 e 1870, considera-se, geralmente, que a oceanografia moderna nasceu com a viagem de circum-navegação do H.M.S. Challenger, entre 1872 e 1876.

As descobertas que, a pouco e pouco, iam sendo efectuadas, juntamente com a acumulação progressiva dos conhecimentos sobre o oceano, tendo também como catalizador a polémica Forbes sobre a distribuição da vida marinha, estimularam o interesse que culminou na primeira viagem de circum-navegação com o objectivo expresso de estudar o ambiente marinho. Esta missão surgiu na sequência de uma recomendação efectuada em 1871 pela Royal Society of London ao governo britânico, segundo a qual a expedição deveria contemplar os seguintes aspectos:

    a) condições físicas do oceano profundo nas grandes bacias oceânicas;
    b) composição química da água do mar em toda a coluna de água dos oceanos;
    c) características físicas e químicas dos depósitos marinhos;
    d) distribuição da vida em todas as profundidades oceânicas e no fundo marinho.

Na sequência desta recomendação, foi aparelhada a corveta a vapôr HMS Challenger, que tinha 68,8 metros de comprimento, e deslocava 2306 toneladas. A expedição foi comandada por Sir Charles Wyville Thomson, sendo a tripulação do navio constituída por 243 elementos e a equipa científica por 6 cientistas.

Durante a sua viagem de circum-navegação percorreu quase 79 178 milhas (127 500km), efectuou 492 sondagens profundas, 133 dragagens de fundo e 151 arrastes na coluna de água, tendo ocupado 362 estações oceanográficas.

Em cada uma destas estações foram efectuados (ou tentaram-se efectuar) os seguintes trabalhos:

  • determinação da profundidade (sondagem)
  • colheita de sedimentos de fundo (através de um tubo colocado na extremidade da linha de sondagem)
  • colheita de animais e vegetais existentes à superfície e a meia água, utilizando redes de arrasto
  • colheita de fauna de fundo (e eventualmente de rochas), efectuando uma dragagem
  • medição da temperatura da água à superfície, a várias profundidades, e junto ao fundo
  • colheita de água à superfície, a várias profundidades e junto ao fundo (para determinação da sua composição química)
  • medição da dorecção e da velocidade das correntes superficiais (e, por vezes, subsuperficiais)
  • observações atmosféricas e meteorológicas

No total, foram descobertos 715 géneros novos e de 4 417 espécies novas de vida marinha (o que dá a média surpreendente de 5 novas espécies por cada dia passado no mar). Entre as várias sondagens profundas efectuadas, realizou-se uma, na fossa das Marianas, a 8 185 metros de profundidade (a sondagem mais profunda efectuada até à altura). Esse local é, actualmente, denominado por Challenger Deep.

A quantidade de dados obtidos pela expedição foi imenso. Os relatórios da expedição, cuja eleboração demorou 23 anos, ocuparam 29 500 páginas, distribuidas por 50 volumes.

John Murray, que era imediato no HMS Challenger, e que teve papel de grande relevância no desenvolvimento da oceanografia, ao visitar Christmas Island descobriu grandes depósitos de fosfato, tendo convencido a Inglaterra a reclamar a posse desta ilha. Posteriormente constituiu uma companhia mineira e acabou por enriquecer, tendo financiado, com a sua fortuna, alguns cruzeiros oceanográficos.

 
 H.M.S. Challenger
 
 

 

Rota da Challenger

Murray

   

O sucesso da viagem do Challenger despertou grande interesse internacional. Foi mais uma peça decisiva na dinâmica de exploração existente nas décadas de 60 e de 70 do século XIX, que suscitou a realização de variadíssimas expedições oceanográficas em muitos países.

Entre 1874 e 1876 o navio alemão Gazelle efectuou uma expedição oceanográfica de circum-navegação, o mesmo tendo feito o vapôr russo Vitiaz entre 1886 e 1889.

 
   

Entretanto, outros cruzeiros científicos mais pequenos, embora também pioneiros, interessantes e produtivos, iam sendo efectuados nesta época. Foi, por exemplo, o caso do navio austríaco Pola que trabalhou nos mares Vermelho e Mediterrâneo de 1890 a 1898 e do navio norte-americano Blake que, sob direcção de Alexander Agassiz, efectuou expedições na região das Caraíbas entre 1877 e 1880.

 

A. Agassiz

   

Agassiz, que em 1875 se tinha tornado multimilionário, envolveu-se em várias polémicas, com frequência do lado errado, como foi a suscitada pela teoria do desenvolvimento dos recifes de coral, proposta por Darwin, No entanto, desenvolveu intensa actividade relacionada com a investigação oceanográfica, sendo uma das personalidades que esteve na base do actual esquema de financiamento das Ciências do Mar nos Estados Unidos da América. Além disso, foi o primeiro investigador a utilizar cabos de aço em dragagens profundas.

 
   

 Entre as muitas expedições que ficaram famosas, conta-se a do navio norueguês Fram à região árctica, dirigida por Fridtjof Nansen, que decorreu entre 1893 e 1896. O Fram era um navio de madeira, mas construído de tal forma que podia ficar preso no gelo. A expedição da Fram foi uma das aventuras mais espectaculares e intrépidas da história da oceanografia. Em 24 de Junho de 1893, este navio largou de Oslo, na Noruega, com 13 homens a bordo e aprovisionada para 5 anos.

O principal objectivo da expedição era o de colher dados de índole geofísica no oceano Árctico a norte da Groenlândia. Para tal, a ideia era o de fazer com que o navio ficasse preso no gelo e com ele derivasse por forma conseguir cruzar o pólo Norte. Embora este objectivo não tivesse sido cumprido (passou a 245 milhas, isto é, a 394km do pólo), conseguiu-se provar que o Árctico não era um mar pouco profundo (como o mar do norte), mas sim um oceano com profundidades grandes, e que não existia aí nenhum continente.

Nos 3 anos em que o Fram esteve preso no gelo foram registados meticulosamente, entre outros, dados meteorológicos, temperaturas da água e espessura dos gelos. Entre as muitas descobertas interessantes efectuadas pela expedição da Fram, uma das mais surpreendentes foi a detecção de uma massa de água relativamente quente (1,5ºC) entre os 150 e os 900 metros de profundidade, que Nansen interpretou correctamente como sendo uma massa de Água Atlântica que mergulhou sob a Água Árctica, mais fria mas menos salina. Nansen (1861-1930) foi o primeiro explorador que pode realmente ser considerado como oceanógrafo.

Rota da Fram

   

A necessidade que Nansen sentiu de efectuar medições mais precisas da salinidade e da temperatura levou-o a desenvolver equipamento específico para tal, a garrafa de Nansen, intensivamente utilizadana amostragem de água em profundidade.

É de referir, ainda, que as observações sobre a direcção de deriva do gelo relativamente à direcção do vento, efectuadas por Nansen durante a expedição da Fram, foram um auxiliar precioso para Ekman no desenvolvimento da explicação matemática deste fenómeno e, consequentemente, das relações entre o vento e as correntes por este induzidas

Garrafa de Nansen

   

 No final do século XIX começou a haver grande preocupação com as flutuações dos stocks pesqueiros, tendo-se criado várias comissões internacionais para estudar o problema que era, então, muito mal compreendido. Foi, no entanto, o investigador alemão Victor Hensen que, com os seus trabalhos sobre a ecologia dos oceanos, desenvolveu métodos quantitativos e adquiriu dados que permitiram começar a compreender melhor este importante problema.

Victor Hensen, que em 1887 tinha introduzido o termo plancton na terminologia científica, efectuou, em 1889, uma expedição aos trópicos a bordo do navio National, tendo descoberto que, ao contrário do que era convicção geral, havia mais vida microscópica (plancton) nas águas frias do que nas águas quentes tropicais. Trabalhos posteriores revelaram que tal resulta da estratificação térmica: as águas frias mantêm níveis mais elevados de nutrientes devido à mistura de águas induzida pelos temporais.

 
   

Foi apenas após a 1ª Guerra Mundial que a determinação das profundidades oceânicas puderam começar a ser efectuadas com facilidade e grande rapidez, mercê da introdução de equipamentos electrónicos que permitem medir o tempo entre a emissão de um sinal sonoro e a recepção da sua reflexão no fundo (eco). Esta técnica, denominada eco-sondagem, foi pela primeira vez utilizada sistematicamente pelo U.S.S. Stewart, em 1922, quando foi efectuado um perfil batimétrico "contínuo" constutuído por 900 eco-sondagens.

Este novo método de sondagem foi intensivamente utilizado no que, frequentemente, é considerado como o primeiro cruzeiro científico oceanográfico para estudo de uma região oceânica: a expedição do Meteor ao Atlântico Sul, de 1925 a 1927. Até essa altura, as expedições oceanográficas efectuavam normalmente observações isoladas, não-sistemáticas.O Meteor, num período de 25 meses, efectuou 14 travessias do Atlântico Sul, efectuando observações em contínuo, noite e dia. No que se refere a sondagens, obteve mais de 70 000 medições da profundidade a que se localiza o fundo oceânico, revelando, pela primeira vez, o seu relevo.

 
   

Forma de referir esta página: Dias, J. A. (2000) - Introdução à Oceanografia. Capítulo 2 - História da Oceanografia.

http://w3.ualg.pt/~jdias/INTROCEAN/A/A2_historia/index2.html