Universidade do Algarve

Licenciatura em Oceanografia

Módulo Introdutório

Faculdade de Ciências do Mar e do Ambiente

Introdução à Oceanografia

J. Alveirinho Dias

 
2. HISTÓRIA DA OCEANOGRAFIA
 
   
2.1. Os Primórdios da Oceanografia mod. Mai00
   
 
   
O desenvolvimento dos primórdios da oceanografia, na antiguidade clássica, esteve intrinsecamente relacionado com o comércio e com actividades bélicas. O conhecimento da distribuição das terras emersas, das correntes e dos baixios, entre outros, constituíam vantagens sobre o inimigo comercial e/ou beligerante. Como tal, esse conhecimento era, muitas vezes, considerado como confidencial.
 
Na antiguidade clássica o conhecimento bidimensional do oceano, isto é, da distribuição dos continentes e dos oceanos pela superfície da Terra era, já, bastante desenvolvido. Tal permitia que, cerca de 2 000aC, os fenícios efectuassem navegações em todo o Mediterrâneo, no Mar Vermelho, no oceano Índico e nas costas atlânticas europeias.
 
   
  • Cerca de 500aC Parménides defendia que a Terra era esférica.
  • Cerca de 450aC Heródoto produziu uma das primeiras representações cartográficas de que há notícia, na qual se pode constatar que os conhecimentos geográficos dos gregos, na altura, era já bastante completo.
  • Cerca de 400aC a relação entre os estados da maré e as fases da Lua estava já estabelecida.
  • Cerca de 250aC Eratóstenes determinou o perímetro da Terra com precisão notável e desenhou uma carta do mundo então conhecido, na qual é possível reconhecer, entre vários outros territórios longínquos relativamente à Grécia, as Ilhas Britânicas, Ceilão e, possivelmente, o Japão.
 
Mapa de Eratóstenes
  •  Também na mesma altura, Ptolomeu, opondo-se a Eratóstenes, defendia que na Terra predominavam as terras emersas, sendo o Atlântico e o Índico mares interiores, tal como o Mediterrâneo. Ptolomeu afirmava, ainda, que as extremidades ocidental e oriental das terras emersas estavam próximas e, consequentemente, que navegando para Oeste se poderiam atingir a extremidade oriental. Foram estas ideias que, bastante mais tarde, inspiraram Colombo.
  • Posidonius, nascido cerca de 135aC, relata ter-se efectuado uma sondagem próxima da Sardenha, tendo-se encontrado fundo a 1 828 metros. A ser verdade, pois existem poucas informações sobre os métodos utilizados, este feito reveste-se de grande importância dadas as dificuldades de efectuar sondagens profundas, que só começaram a ser praticadas com alguma frequência no século XVII.
 
   
Na antiguidade clássica desenvolveram-se duas escolas antagónicas:  
  • uma, representada, por Eratóstenes e Estrabão, defendia que as massas continentais constituiam uma ilha rodeada pelo oceano;
  • outra, encabeçada por Ptolomeu, postulava que a dominância, na Terra, era a dos continentes, constituindo o Atlântico e o Índico mares interiores, como o Mediterrâneo.
 
   
 Após a queda do Império Romano entrou-se num período negro da história europeia: a Idade Média. As relações comerciais decresceram até atingirem um mínimo. Muito do conhecimento existente na Antiguidade Clássica perdeu-se.  
   

No entanto, os Vikings, beneficiando das condições climáticas amenas da altura, efecturam muitas navegações e, antes do ano 1000dC, estabeleceram colónias em vários locais na periferia atlântica, designadamente na Islândia e na Groenlândia. Cerca de 982dC, Eric, o Vermelho, chegou à ilha de Baffin. Mais tarde, os seu filho Leif Ericsson atingiu a Terra Nova. Provavelmente, os Vikings chegaram mesmo a estabelecer colónias a América do Norte.

Todavia, por volta do ano 1200, verificou-se deterioração climática que tornou difícil a sobrevivência das colónias, as quais tiveram de ser abandonadas e/ou pereceram à fome.

   
Enquanto a Europa estava sujeita às discussões teológicas que dominaram a Idade Média, também os Árabes efecturam grandes navegações, designadamente no oceano Índico, tendo mesmo chegado à China.
 
   

Os Chineses, que utilizavam já a agulha magnética, efecturam-se, também, nesta altura, muitas navegações por todo o extremo oriente.

O período aureo das navegações chinesas ocorreu, no entanto já no século XV. O almirante Zheng He preparou a maior armada até então aparelhada, constituída por 317 navios e 37 000 homens, tendo efectuado, entre 1405 e 1433, sete missões em que explorou a região da Indonésia e o oceano Índico, tendo mesmo contornado a extremidade meridional da África, penetrando no Atlântico. O maior navio da armada, que tinha 134 metros de comprimento e nove mastros, estava carregado de tesouros trazidos da China. O objectivo era oferecê-los aos povos visitados como forma de demonstração de que a nação chinesa era a única verdadeiramente civilizada e de que a jovem dinastia Ming era poderosa...

Em 1433 surgiram problemas de índole política e estas explorações oceânicas foram abandonadas por serem consideradas muito dispendiosas.

 
   
Forma de referir esta página: Dias, J. A. (2000) - Introdução à Oceanografia. Capítulo 2 - História da Oceanografia. http://w3.ualg.pt/~jdias/INTROCEAN/A/A2_historia/index2.html