| Geologia
Ambiental |
Elementos de apoio preparados
por J. Alveirinho
Dias |
| Mar 00 |
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Casos
de Estudo |
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As Cheias da Venezuela
em Dezembro de 1999
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Artigo
publicado no "Expresso" em
24 de Dezembro de 1999 |
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Inundações
deixam Venezuela em caos total |
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NINGUÉM
sabe quantas são as vítimas
das inundações na Venezuela,
mas a Protecção Civil
admite que possam chegar aos 50 mil
mortos, a juntar a 250 mil deslocados.
«A situação é
dantesca e o facto de terem caído
três helicópteros num só
dia dá a noção
do caos em que se debatem as equipas
de socorro», disse ao EXPRESSO
o secretário de Estado das Comunidades
Portuguesas, José Lello, que
visitou a região. |
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Cinco
membros de uma família oriunda
da Madeira morreram na quarta-feira
num desses acidentes de helicóptero
As vítimas são um abastado
empresário radicado há
anos em Caracas, a mulher, e três
filhos (de 19, 16 e 10 anos). Outros
dois dos 400 mil membros da comunidade
lusa faleceram por razões indirectamente
relacionadas com a catástrofe. |
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| Venezuela:
entre os 50 mil mortos há pelo
menos 7 portugueses |
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No estado de Vargas, o mais afectado,
nenhum dos quatro residentes de origem
portuguesa figura entre as 691 vítimas
identificadas.
«As autoridades dos dois países
estão a fazer todo o possível
mas, infelizmente, não podemos
garantir que todos os portugueses estão
salvos», disse Lello, que
alertou para o facto de as listas de
desaparecidos «não serem
fiáveis». |
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Vista
de Carmen de Uria após a catástrofe. Antes
das cheias de dezembro a densidade de casas no centro
da fotografia era análoga á que é
visível agora do lado esquerdo . |
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Em
Carmen de Uria não existem áreas que não
apresentem elevada vulnerabilidade a cheias ou a movimentos
de massa. A perda de vidas humanas neste núcleo
urbano foi muito elevada. |
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Artigo
publicado no "Expresso" em 24 de Dezembro
de 1999 |
As
águas da morte |
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PODIA
ser uma zona de guerra, marcada pelo ruído
constante de dezenas de helicópteros
a transportarem sobreviventes. No terreno, arrastando-se
pela lama e pelos detritos, milhares de outros
procuram a segurança, transportando alguns
bens patéticos e animais domésticos.
O pequeno Estado venezuelano de Vargas ocupa
uma estreita faixa litoral no sopé do
Cerro del Avila, uma montanha com dois mil metros
de altitude. Até agora, era, para os
habitantes da capital, Caracas (que fica do
outro lado da montanha), sinónimo de
fim-de-semana na praia.
Às primeiras horas da manhã de
quinta-feira da semana passada, após
duas semanas de chuvas quase incessantes, a
montanha praticamente explodiu. Paredes de água
que chegavam a atingir seis metros de altura
desceram pelas encostas íngremes, trazendo
consigo árvores inteiras e pedras do
tamanho de automóveis. Em Guanape,
o motorista de táxi, Helio Rodriguez,
de 32 anos, perdeu nove primos e duas tias numa
das primeiras casas a ser varrida. «Ninguém
escapou, ninguém - diz - as pessoas
corriam, mas o que podiam fazer?» |
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Centenas
de pessoas esperam a bordo de um navio de guerra
para serem evacuados de uma praia em Caraballeda,
a norte de Caracas |
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Um
dos piores desastres do séc. XX
O
número de vítimas, não
pára de crescer. Admite-se já
que terão morrido entre 30 mil e 50 mil
pessoas em todo o país (e haverá
cerca de 250 mil desalojados), o que faz da
catástrofe um dos maiores desastres naturais
da América Latina no século XX.
No
sábado passado, o choroso Lenin Marcano,
presidente da Câmara da capital estadual,
La Guaira, estimou em 25 mil o número
de mortos só em Vargas - cerca de 8%
da população. Mas, tal como qualquer
outra pessoa, está a atirar números
ao acaso. «Os mortos estão amontoados
como pedaços de detritos»,
diz Helio, que sepultou os seus familiares no
mar. «Apenas os colocámos na
beira-mar e esperámos pela maré
cheia», explicou. |
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Só
há uma grande estrada em Vargas: a avenida
marginal (conhecida em La Guaira como avenida
Soublette) que, para leste, se transforma na
auto-estrada marginal. A maior parte está
agora intransitável, coberta, em alguns
pontos, por dois metros de lama e pedras. Grandes
troços foram literalmente varridos, juntamente
com bairros inteiros que alojavam milhares de
pessoas.
Parte
dos bairros pobres construídos nas encostas
íngremes de Avila também desapareceram.
«Sou de Llano Adentro... - diz
Oscar Vargas, de 21 anos, que perdeu toda a
família - ou antes, quero dizer que
era de Llano Adentro. Agora não
há lá nada». É
uma frase que se ouve vezes sem conta.
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Marinheiros
salvam um bebé para dentro de um «ferry»
da Armada, também em Caraballeda |
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Em
La Guaira, há uma cena diferente de destruição
ao virar de cada esquina. Uma rua estreita e
inclinada está completamente cheia de
pedras até às janelas do primeiro
nadar. Na rua seguinte, meia dúzia de
veículos amachucados estão empilhados
até à altura de um segundo andar
contra a parede de uma pequena igreja.
Num
telhado próximo, jaz um cadáver,
com um lençol colorido a servir de mortalha.
O odor da morte lembra constantemente que por
baixo da lama há muitos mais cadáveres.
O hospital local, o José Maria Vargas,
fechou as portas. «Havia demasiados
mortos», diz Jesus Sanchez, um detective
da polícia. |
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Sem
electricidade para refrigerar os cadáveres
e sem água corrente, Vargas está
à beira de uma grave emergência
de saúde pública. Ao lado do hospital
fica a sede inundada da companhia de electricidade.
Logo a seguir, fica o cemitério, onde
os caixões jazem dispersos na lama.
Parece
que toda a gente está a abandonar a zona.
As únicas pessoas que se dirigem para
leste, na direcção contrária
à estrada para Caracas, são os
soldados, bombeiros e equipas de voluntários.
«Ver este êxodo parte-me o coração
- diz Julio Capriles, um dirigente da comunidade
local - acredito na reconstrução
do Estado, alguém tem de ficar. Neste
momento, ficámos reduzidos a nada, o
Estado desapareceu». O concelho de
Vargas foi criado há pouco mais de um
ano. Além das estâncias balneares,
inclui o principal aeroporto internacional do
país, em Maiquetia, e o porto de La Guaira,
por onde passa cerca de um terço do comércio
da Venezuela. |
| Uma
equipa venezuelana de salvamento escava na lama,
à procura dos corpos de vítimas
mortais |
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Mas a auto-estrada que os liga a Caracas ficou
reduzida a duas faixas e só está
aberta ao tráfego de emergência,
paralisando quer o porto quer o aeroporto.
Pior ainda é o estado do depósito
de contentores do porto. Dezenas de enormes
contentores de aço foram atirados como
caixas de cartão pela força da
água e jazem amachucados e amontoados.
Alguns flutuam no mar, e os que escaparam foram
saqueados, tal como a maior parte das lojas
da cidade. |
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Os
planos de recuperação estão
a ser prejudicados pelo facto de, praticamente,
todos os trabalhadores portuários terem
sido afectados de uma maneira ou de outra pelo
desastre.
«Precisamos de todo o auxílio
internacional que seja possível -
diz Julio Capriles - este é provavelmente
o pior desastre na Venezuela este século.
É como se tivesse havido uma guerra».
Embora
a zona de Vargas tenha sido certamente a mais
atingida, as inundações afectaram
quase todo o norte da Venezuela. No estado vizinho
de Miranda, a barragem El Guapo transbordou,
provocando extensas inundações
e o encerramento de parte da principal auto-estrada
que liga Caracas ao leste do país.
Na
própria capital, milhares de pessoas
perderam as suas casas e poderão ter
que ser reinstaladas no interior. Em todo o
país, terão sido destruídas
23 mil casas, e outras 96 mil terão ficado
danificadas.
No
meio do caos, muitos mantêm ainda a fé.
Na catedral de La Guaira, as águas tumultuosas
do rio Osorio arrancaram uma estátua
da Virgem de Coromoto do pedestal e depositaram-na,
intacta e de pé, nos degraus do altar.
«As pessoas dizem que foi um milagre»
- diz Julio Capriles - nesse momento, as
águas baixaram». |
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Um
bombeiro ajuda uma mulher a tentar atravessar,
com o apoio de uma «corda de salvamento»,
uma rua onde tudo (até são visíveis
destroços de automóveis) foi devorado
pelas águas e pela lama |
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No
bairro meio sepultado de El Cardonal, um livro
empapado, aberto na página do título,
jaz na base de um espectacular escorregamento
de terras ostentando o que parece ser uma mensagem
para quem passa. Fuerza para Vivir é
o seu título.
De
entre os que precisarão dessa mesma força
para viver estarão muitos portugueses,
cuja colónia de imigrantes está
perto dos 400 mil, na sua maioria madeirenses.
Muitos poderão ter sido desalojados,
mas até à hora de fecho desta
edição, as autoridades de Lisboa
não tinham qualquer informação
sobre vítimas mortais portuguesas.
PHIL
GUNSO La Guaira (Venezuela) |
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Fotografia
aérea oblíqua de Tanaguarena, a oriente
de Caraballeda, onde é bem visível um
dos deltas formados na costa norte da Venezuela, junto
às desembocaduras dos rios, devido às
grandes quantidades de sedimentos e de detritos das
mais variadas origens para aí transportados pelas
cheias. Muitos dos escoamentos foram do tipo fluxo de
lama (mudflow) e fluxo de detritos (debris
flow). |
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As
cheias e os fluxos de detritos passaram através
do 3º andar deste bloco de apartamentos em Los Corales,
na zona de Caraballeda. As cheias ocorreram durante
a noite e muitos dos residentes caíram no fluxo
torrencial quando o lado esquerdo do edifício
colapsou. |
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Cicatrizes
de cedências da vertente e de fluxos de detritos
ao longo da Quebrada San Julián. |
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O
rio Naiguatá atravessa o leque aluvial, onde
se localiza o núcleo urbano de Naiguatá,
por um canal que foi muito alargado durante as cheias.
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