| Geologia
Ambiental |
Elementos de apoio preparados
por J. Alveirinho
Dias |
| Mar 00, mod.Fev. 06 |
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Casos
de Estudo |
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As Cheias da Venezuela
em Dezembro de 1999
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A
parte norte da Venezuela é caracterizada por
uma morfologia acidentada, com uma plataforma litoral
estreita que transita para uma zona montanhosa, a cadeia
montanhosa de Ávila, com altitudes que ultrapassam
os 2 500 metros. Nesta região, 75% da população
(23 milhões) vive nesta área costeira
com elevada densidade demográfica.
Toda
a região tem estado sujeita a intensa desflorestação:
estima-se que, na última década, a área
florestada esteja a desaparecer à razão
de 1,1% por ano. |
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Durante
as primeiras duas semanas de Dezembro de 1999, na parte
norte da Venezuela, ocorreu precipitação
intensa e prolongada (entre 300 e 500 mm), considerada
como a maior precipitação dos últimos
100 anos.
Na
sequência desta precipitação extremamente
elevada ocorreram grandes cheias súbitas (flash
floods) e numerosos movimentos de massa de todos
os tipos, o que conduziu a uma situação
de catástrofe com dezenas de milhares de mortos
e desaparecidos, aldeias inteiras desaparecidas sob
metros de sedimentos, dezenas de milhares de casas destruídas,
quase meio milhão de desalojados e prejuízos
de vários milhões de dólares.
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O
norte da Venezuela é, como, na generalidade,
o resto do país, é muito acidentado
com vertente íngremes. O cume da Serra
de Ávila, a apenas uns 6 a 10km da costa,
atinge 2700m. Grande parte dos rios e ribeiros
desta região montanhosa drenam para Norte
correndo em vales profundos e encaixados, desembocando,
na parte terminal, antes de atingir o Mar das
Caraíbas, em leques aluviais, praticamente
as únicas zonas aplanadas da região
de Vargas. As principais localidades, muitas
das quais com marcado pendor turístico,
localizam-se nestas pequenas zonas aplanadas. |
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Relevo
do norte da Venezuela (adapt. de serc.carleton.edu/files/NAGTWorkshops/health04) |
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Situação
sinóptica entre 1 e 19 de Dezembro de 1999 (Pedro
Delfin, Ministério del Ambiente y de los Recursos
Naturales de Venezuela) |
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Estimativa
da precipitação na costa venezuelana entre
15 e 17 de Dezembro, deduzida de imagens satelitárias
(www.comet.ucar.edu) |
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Área da costa venezuelana
correspondente à imagem de satélite da figura
superior. |
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Estima-se
que, entre as 18:00 horas do dia 15 de Dezembro e as
12:00 horas do dias 17 de Dezembro a precipitação
atingiu valores entre 300 e 480 mm nas cidades de Maiquetía
e La Guardia, na costa norte de Caracas Venezuela).
Além das cheias provocadas pelo grande incremento
dos caudais fluviais, a forte precipitação
induziu vários movimentos de massa catastróficos,
como deslizamentos (landslides), fluxos
detríticos (debris flows) e fluxos de
lama (mudflows). |
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Os
registos meteorológicos da estação
meteorológica de Maiquetía revelam a precipitação
excepcional aludida.
Nos
dias 14, 15 e 16 a chuva ultrapassou os 900mm.
Para
ter noção de como este valor é
realmente muito elevado basta referir que, nesses 3
dias, choveu mais do que, em média, chove na
parte sul portuguesa durante o ano inteiro. |
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A
catástrofe começou quando a precipitação
muito abundante provocou, na Serra de Ávila,
cedência de vertentes que, com frequência,
se transformaram, nas encostas íngremes das montanhas,
em fluxos de detritos (debris flows), muitos
dos quais se converteram em intensos fluxos de lama
(mud flows).
Simultaneamente,
como o solo estava saturado de água, o que impedia
qualquer infiltração, a intensa precipitação
gerou forte escorrência superficial, e como o
pendor da rede fluvial é bastante elevado, geraram-se
cheias súbitas (flash floods) que rapidamente
atingiram a zona costeira, apkanada (constituída
por leques aluviais), onde se localiza, predominantemente,
a ocupação humana. |
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Os
movimentos de terras e os fluxos de detritos iniciados
nas vertentes íngremes da Serra de Ávila
foram conduzidos pela rede de drenagem, devastando tudo
à sua passagem.
Os
fluxos de detritos (debris flows) à
medida que iam destruindo muita da ocupação
humana existente nos vales, foram incorporando mais
detritos (árvores, rochas, etc.), designadamente
destroços de edifícios e muitos outros
restos das actividades humanas.
A
geração destes fluxos detríticos
foi potenciada, em muitas zonas, pela prévia
remoção da vegetação, isto
é, pela desflorestação efectuada
designadamente para obter a madeira necessária
à expansão urbana. |
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As
situações mais catastróficas verificaram-se
na zona costeira, ocupada por densos núcleos
urbanos. Efectivamente, esta região localiza-se
relativamente próximo de Caracas (localizada
do lado sul da Serra de Ávila) e essa uma das
razões do pendor marcadamente turístico
da região. Acresce que a população
tinha crescido muito devido à emigração
proveniente de países vizinhos, população
esta que, em geral, vivia em bairros degradados.
Na
fotografia é bem visível, ao longe, o
leque aluvial onde se desenvolveu a cidade de Caraballeda,
vendo-se, em primeiro plano, a Quebrada San Julian que
ao longo do tempo foi constituindo o leque aludido. |
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Esta
bacia hidrográfica tem apenas 28 km2, mas abrange
zonas a 2 000 m de altitude. O pendor médio do
sistema fluvial é de 50%, o que lhe confere uma
energia extremamente elevada. Essa energia é
amplificada pela aceleração do fluxo quando
este passa pelo vale encaixado visível na fotografia.
Devido
a estas condições, os fluxos detríticos
atingiram a cidade de Caraballeda com grande intensidade,
e como a zona é aplanada, perderam energia e
aí depositaram grande parte da carga sólida
grosseira, continuando a construção do
leque aluvial.
Tal
é visível na vista aérea de Caraballeda
(foto ao lado) onde se nota bem a grande deposição
de sedimentos grosseiros que, em grande parte, vieram
sob forma de fluxos, da zona de Los Corales. |
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Foi
deste modo que as cidades de Macuto e de Caraballeda
ficaram, em grande parte, enterradas sob mantos sedimentares.
As
localidade de Los Corales, Camuri Chico e Carmen de
Uria desapareceram totalmente sob a carga sedimentar
depositada a partir dos fluxos detríticos.
Como
tudo se processou muito rapidamente, as populações,
na maior parte, não tiveram tempo para procurar
refúgio seguro em zonas mais elevadas e não
sujeitas a cedência de vertentes.
Compreende-se,
assim, que a tragédia tenha provocado dezenas
de milhares de mortos. |
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| O
número de vítimas foi maior devido às
condições em que o estrato populacional
mais desfavorecido vivia.
Com
efeito, a grande quantidade de pessoas provenientes
de meios rurais que migraram para estas áreas
urbanas (em especial os que emigraram de países
vizinhos) tinham construído as suas casas abarracadas
junto das margens fluviais e nas encostas íngremes,
instáveis, adjacentes às grandes cidades.
No
decurso destes eventos a zona de contentores do porto
de La Guaira foi destruída (imagem ao lado).
Tal provocou grande preocupação pela possibilidade
de existirem contentores com produtos tóxicos.
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A
paisagem da região foi fortemente modificada,
verificando-se crescimento significativo dos leques
aluviais.
A
quantidade de sedimentos transferidos para o meio marinho
foi muito grande, permanecendo as plumas túrbidas
então geradas durante muito tempo.
A
fotografia ao lado mostra uma vista aérea do
estado de Vargas, onde são bem visíveis
as cicatrizes dos abundantes fluxos detríticos,
os sedimentos recentemente acumulados nos vales, vários
deltas recém-constituídos e intensas plumas
túrbidas no mar das Caraíbas.
Foi
um episódio extremamente morfogenético
que era facilmente previsível, embora fosse impossível
dizer quando ocorreria. |
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Fotografia
aérea de Tanaguerena, em que se consegue perceber
bem que esta localidade se situava numa zona extremamente
vulnerável a vários riscos. Estão
assinalados os principais processos que causaram uma
situação catastrófica nesta localidade:
cheias súbitas (flash floods), deslizamentos
(landslides) e fluxos detríticos (debris
flows). Foto: Matthew C. Larsen, USGS. Fonte: www.comet.ucar.edu. |
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Vista
oblíqua de sul anterior à catástrofe
de Dezembro de 1999, mostrando a zona montanhosa de
Avila, a bacia hidrográfica da Quebrada de San
Julian e a urbanização na zona costeira
de Caraballeda, no estado de Vargas. (Pedro
Delfin, Ministerio del Ambiente y de los Recursos Naturales
de Venezuela). |
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Alguns dados da
catástrofe:
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Estima-se
que cerca de 50 000 pessoas perderam a vida.
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Mais
de 400 000 pessoas ficaram sem casa.
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Pelo
menos 600 000 pessoas foram directamente afectadas
pelas cheias e movimentos de massa.
-
Cerca
de 90 000 casas foram destruídas.
-
Algumas
aldeias ficaram enterradas numa massa de lama,
rochas e detritos, por vezes até á
altura das luzes dos candeeiros de iluminação
pública.
-
Muitas
fazendas e vias de comunicação foram
inteiramente destruídas.
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Os
aeroportos estiveram encerrados à aviação
comercial durante mais de uma semana.
-
Prejuízos
estimados: vários biliões de dólares.
-
Provavelmente,
o factor mais importante nesta catástrofe
foi a degradação da rede de drenagem
natural causada pelo pressão desenvolvimentista,
ou seja, uma incorrecta ocupação
do território.
-
O
próprio presidente Chavez denunciou que
"os governos anteriores, corruptos, permitiram
que autenticas cidades clandestinas se desenvolvessem
e invadissem terrenos perigosos". Na realidade,
milhares de pessoas construíram as suas
casas, de forma caótica e sem qualquer
fiscalização, nas vertentes íngremes
adjacentes a Caracas. A oposição
política critica o presidente Chavez por
ter ignorado os avisos para evacuar os residentes.
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| Situação
em 25 de Dezembro de 1999 obtida através de imagens
pancromáticas SPOT. As zonas afectadas por inundações
fluviais e por violenta sedimentação estão
representadas a cor violeta. As áreas erodidas
e a sedimentação costeira estão assinaladas
a azul. As áreas construídas estão
indicadas a branco. O cinzento corresponde a áreas
não afectadas. Notem-se as grandes e intensas plumas
túrbidas, na maior parte associadas à desembocadura
de cursos fluviais, presentes no meio marinho. Extraído
de Nezry et al. em www.treemail.nl. |
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Mapa
dos depósitos originados pelos fluxos detríticos
no leque aluvial de Caracalleda, onde se localiza a
cidade com o mesmo nome, publicado pelo U.S. Geological
Survey e produzido por Wieczorek, Larsen, Eaton, Morgan
& Blair.
Legenda:
A - depósitos detríticos e de cheia gerados
entre 14 e 16 de Dezembro de 1999
B - antigos depósitos detríticos, provavelmente
históricos
C - depósitos detríticos pré-históricos
existentes em zonas mais elevadas
D - linhas de contorno espaçados de 0,5m) da
dimensão dos blocos depositados em Dezembro de
1999, correspondendo o vermelho mais escuro à
zona onde se depositaram blocos superiores a 5,5m. |
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Mapa
dos principais processos de geodinâmica externa
registados na Venezuela, em Dezembro de 1999. |
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Estima-se
que o volume de sedimentos depositados nos leques aluviais
de Camuri Grande e de Caraballeda, com espessura de
vários metros, tenha sido de cerca de 2 milhões
de metros cúbicos. Esses sedimentos são
muito heterométricos (como se pode constatar
na fotografia do lado esquerdo), com granulometrias
que vão da dimensão das argilas até
à da dos grandes blocos, como o que pode ser
observado na imagem do lado direito, com cerca de 10
metros. (fotografias extraídas
de http://serc.carleton.edu/files/NAGTWorkshops/health04/MarinPoster). |
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