Geologia Ambiental

   Elementos de apoio preparados por J. Alveirinho Dias

Mar 00    
Casos de Estudo

As Cheias de Fevereiro / Março de 2000 em Moçambique
           
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As cheias não são um fenómeno raro em Moçambique. Por alturas da estação das chuvas - que corresponde ao Verão moçambicano, quando o Sol se aproxima do Equador, durante a passagem do equinócio, o país é atingido por chuvas fortes, que se repetem ciclicamente. No entanto, em 2000, a passagem do ciclone "Eline" veio agravar em 90 por cento a situação, gerando cheias catastróficas.

Os ciclones, nesta região, formam-se no Oceano Índico e rumam para sudoeste. A maior parte das vezes dissipam-se no Canal de Moçambique, antes de atingirem a costa do continente africano, ou quando chegam à ilha de Madagáscar. Em 2000 o ciclone Eline passou à volta da ilha e chegou à costa, provocando muito chuva e ventos com mais de 100km/h.

Estima-se que esta catástrofe tenha provocado centenas de mortos, 300 000 refugiados e um milhão de desalojados. 

   
 
As cheias obrigaram centenas de milhares de pessoas a abandonar as suas casas (CNN Fevereiro 21, 2000)
 
Moçambicanos lutam para manter secos os seus parcos haveres (CNN Março 1, 2000)
   
   
As cheias obrigaram centenas de milhares de pessoas a abandonar as suas casas (CNN Fevereiro 21, 2000)
 
Em Chibuti, uma mulher segura o seu filho nos braços enquanto espera que um helicóptero os salve (CNN Março 1, 2000)
           
 
Como Se Chegou à Tragédia?
Por MARCELO MOSSE, em Maputo
Público, Domingo, 12 de Março de 2000
 

O Governo moçambicano sabia que a época chuvosa de Verão podia acabar em graves inundações. Desde Janeiro que a Administração Regional das Águas do Sul (ARA-Sul), a autoridade que vela pelo comportamento dos rios do Sul de Moçambique, vinha informando: "Vem aí um pico de cheias"; "atenção, tomem cuidado!". E nas vésperas dos dias cruciais, com as chuvas já intensas e as inundações por perto, Maputo fez apenas alertas, em vez de tomar medidas concretas de evacuação das zonas em perigo. Os apelos à comunidade internacional surgiram quando a situação já era crítica. Mesmo depois de os sul-africanos avisarem que iria haver descargas. O PÚBLICO traça uma cronologia da tragédia moçambicana.
 
6 de Fev. - Em Janeiro, as chuvas sazonais tinham causado estragos e mortes no Sul, mas nada que chamasse a atenção da comunidade internacional. O dia 6 de Fevereiro foi um domingo fatídico. As cidades de Maputo e Matola e algumas regiões do Centro ficaram mergulhadas numa chuvada intensa. A memória dos mais velhos comparou-as com algo semelhante ocorrido nos anos 60. No plano da destruição, Maputo e Matola ficaram desfiguradas como hoje ainda se pode ver, e milhares de residentes dos subúrbios precários perderam tudo o que tinham. Dias antes, tinha chovido intensamente nas províncias de Gaza e Inhambane, cortando o trânsito na principal rodovia nacional que liga o Sul ao Centro e Norte do país.

7 de Fev. - Maputo acorda isolada, sem comunicação para a Suazilândia e África do Sul, que lhe fornecem os bens essenciais, e para o Centro e o Norte, que precisam do Sul para sobreviver; o primeiro-ministro anuncia que ele passa a coordenar as operações de socorro e decreta "mobilização geral"; regressam os alertas da ARA-Sul sobre o perigo de inundações graves no rio Incomati, devido a anunciadas descargas na África do Sul. E anunciava que uma onda de cheias iria afectar o Chókwe, nas margens do Limpopo, daí a poucos dias.

8 de Fev. - De visita a Maputo, e confrontado com os estragos que viu na cidade, o primeiro-ministro norueguês, Kjell Bondevik, oferece 100 mil dólares (20 mil contos) para reparações; Joaquim Chissano visita as várias zonas afectadas em Maputo e dá-se conta da tragédia; o Governo diz que está a preparar um apelo à comunidade internacional e começam a surgir problemas de falta de água e alimentos nos centros de acomodação.

9 de Fev. - É lançado um apelo de emergência: 17,7 milhões de dólares, dos quais 2,7 milhões para acções imediatas de ajuda humanitária e 15 milhões para a recuperação das infra-estruturas. São contabilizados 28 mortos vítimas das inundações no Sul e em Sofala.

14 de Fev. - Maputo continua desligada do Centro e Norte, mas o acesso à África do Sul é possível porque a nova auto-estrada em construção foi aberta. Em Gaza já há áreas largamente inundadas e a ARA-Sul alerta para que o Limpopo tende a subir cada vez mais e, nalgumas zonas, já havia picos de cheias. No Xai-Xai, a margem esquerda já está inundada e renovam-se alertas para que as pessoas se afastem das zonas mais baixas. Contam-se 48 mortos desde Janeiro. A situação é crítica nas margens do rio Buzi e em Machanga. Aqui a Força Aérea Sul-Africana já faz distribuição de víveres. Todo o vale do Limpopo está avisado de que grandes picos de água se aproximam. O Governo alerta as pessoas de que as inundações se aproximam, mas nada de concreto se faz em termos de evacuação.

15 de Fev. - O mercado do Sul já se recente dos efeitos das chuvas, pois estas também atingiram vastas zonas da África do Sul, dificultando a ligação com Maputo, onde se faz sentir uma escalada inflacionária. As províncias de Gaza e Inhambane continuam isoladas das fontes de abastecimento em alimentos. Os jornais de Maputo começam a relatar o drama no Limpopo, 27 mil pessoas são dadas como isoladas no Chókwe e em Guijá e a ARA-Sul alerta para que o Limpopo ainda vai encher. Do Governo, nada de concreto, apenas lamentações. Os militares locais continuam aquartelados. Em Xai-Xai, os esgotos já deixam infiltrar água para o centro da cidade. A imprensa governamental diz que o Governo quer a colaboração de todos, mas acções de evacuação, nada. Dir-se-ia que as pessoas não acreditavam que as inundações seriam tão graves. Não havia memória de coisa igual, mas os moçambicanos parecem ter deixado de acreditar nas orientações do Governo.

16 de Fev. - Chissano empossa novo Governo, mas as cheias não fazem parte do seu discurso. Renova a velha retórica contra a corrupção mas, no Chókwe, há quatro mil famílias isoladas e, no Sul de Sofala, 35 mil pessoas esperam ajuda. Os helicópteros sul-africanos já resgatam os sitiados. Ninguém vê, no entanto, os militares locais no terreno (mais tarde, no seu recente discurso de estado da nação, Chissano diria que os militares foram os primeiros a sair à rua).

18 de Fev. - Chissano desperta para o drama e visita a província de Gaza. Nos bastidores, isso é visto com desconfiança, pois Gaza é a sua província natal - em Sofala, mais longe, também se morria -, onde tem interesses empresariais. Em Sofala, as mortes multiplicam-se e o ciclone "Eline" aproxima-se do canal de Moçambique.

19 de Fev. - Há mais sitiados nas localidades ao longo do Limpopo. O "Eline" motiva alerta máximo. O Governo não procede a evacuações, mas continua a alertar. Os helicópteros sul-africanos estão no terreno. Chissano sai a público e faz um discurso bombástico, dizendo que as cheias, que já eram uma realidade dramática, não alterariam o programa do Governo.

22 de Fev. - O ciclone "Eline", com chuvas torrenciais e ventos de mais de 100 kms/hora, arrasa as províncias de Inhambane e Sofala, destruindo transportes, estradas, pontes, postes de energia, etc. No Sul de Sofala, o drama cresce de intensidade. Em Maputo, a malária e a diarreia aumentam. O Governo lança novo apelo de emergência, orçado em 65 milhões de dólares, falando de 200 mil desalojados e milhares de hectares de culturas destruídos.

24 de Fev. - O primeiro-ministro, Pascoal Mocumbi, destoa de Chissano, dizendo que as cheias tinham prejudicado o Plano Económico e Social do Governo. A cólera torna-se notícia.

26 de Fev. - É o dia D. O Limpopo chega ao maior pico de cheias da época e de sempre. A ARA-Sul fala de cheias de "grande magnitude" e renova o alerta para se retirar as pessoas para as zonas mais altas. Tinham ocorrido precipitações de mais de 200 mm na África do Sul, aumentando os caudais dos rios comuns. A parte baixa de Xai-Xai está completamente alagada, afectando o comércio e serviços. Na cidade de Chókwe, as pessoas estavam à espera das águas na tarde de domingo, mas elas chegaram nesse sábado, violentamente. A ajuda internacional começa a chegar.

27 de Fev. - Milhares estão sitiados. Os helicópteros sul-africanos são poucos para tanta gente, Moçambique torna-se notícia principal das televisões de todo o mundo. As vilas de Machanga e Mambone, no Sul de Sofala, e Xai-Xai e Chókwe, em Gaza, estão completamente submersas.

28 de Fev. - O cenário agrava-se em Gaza, Inhambane e Sofala. É o drama, a tragédia, a desolação. Há milhares em cima de palhotas e árvores, esperneando-se por uma "boleia" nos helicópteros. Corpos humanos e animais são arrastados no rio. O Malawi tem dois helicópteros a resgatar no Save, onde 96 pessoas já morreram. Moçambique apenas um.

1 de Março - O drama é total, os mortos incontáveis, o choque presente nas faces dos moçambicanos. Nove mil tinham sido já resgatadas no Sul, mas milhares continuam em cativeiro. As imagens na televisão fazem chorar. A mais emotiva é sem dúvida a do resgate aéreo de Sofia e da sua filha Rosita, nascida minutos antes no cimo da árvore onde a mãe se refugiou da fúria das águas. Chissano visita de novo as zonas afectadas e diz que a ajuda internacional está a ser "lenta". Lenta? Mas ele não a pediu com antecedência.

2 de Março - Vem aí o "Glória", dizem os meteorologistas. As lamentações de Chissano chegam ao mundo. As imagens do dramático nascimento de Rosita também, e a solidariedade internacional aumenta. Há anúncios de mais helicópteros em todo o mundo.

Marcelo Mosse, em Maputo 

Residentes de Palmeira que, durante semanas, tiveram de viver nas águas da cheia. (CNN Fevereiro, 28 2000)
 
   
 
Uma família que se refugiou durante 3 dias nos ramos de uma árvore foi salva por um helicóptero (CNN Mar 1, 2000)
 
   
 
Primeiras distribuições de alimentos às populações atingidas, em Chokwe (CNN February 21, 2000)
 
   
 
Primeiras distribuições de alimentos às populações atingidas, em Chokwe (CNN Março 6, 2000)
 
   
 
Vista aérea de um campo de deslocados e das tendas de apoio (CNN Março 6, 2000)
 
   
 
Residentes de Chokwe inspeccionam os danos sofridos numa casa (CNN Março 6, 2000)
 
   
 
Estima-se que cerca de 300 000 pessoas ficaram sem casa (CNN Fevereiro 28, 2000)
 
   
 
Uma mulher refugiada numa árvore é salva por um helicóptero sul-africano (CNN Março 1, 2000)
 
   
 

Vítimas das cheias tentam salvar-se (Público Fevereiro 23, 2000)

 
   
   
 
Algumas das vítimas foram instaladas em tendas (CNN Fevereiro 21, 2000)
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 Artigo extraído do "PARIS MATCH" de 8 de Março de 2000
 
Terrorisés par les pales des hélicoptères et encore plus par ce qui les attend ailleurs, des rescapés refusent les filins tendus par les sauveteurs
De notre envoye special Michel Peyrard
 

L e lieutenant Thierry Tuffier pointe du doigt le nom de plusieurs villages figurant sur sa carte: Pedro, Tamela et Lobe. «Nous sommes ici.» Le regard a beau fouiller l'immensité aqueuse que survole l'hélicoptère, il ne reste rien. Çà et là, une double rangée d'arbres impeccablement alignés signale l'existence d'une route engloutie. A la faveur du flux, elle resurgit parfois, tente d'exister l'espace de quelques dizaines de mètres, avant d'être happée à nouveau, disparaissant dans l'eau fangeuse. Les silhouettes isolées de palmiers marquent l'emplacement des huttes aux toits de palme que le déluge a emportées. Des villageois montés à bord de barques y fouillent les débris à la recherche de quelque trésor dérisoire: ici une casserole, là un lot de planches flottant à la surface qu'ils hissent laborieusement dans l'embarcation. Privés de repères, ils repartent en suivant une ligne de poteaux électriques à demi émergés qui ne mène nulle part. «Là-bas, il y a du monde!» A travers le cockpit de la Gazelle, le copilote désigne un point au loin: un pont, miraculeusement épargné, sur lequel une cinquantaine de personnes ont trouvé refuge. Comme l'hélicoptère s'approche, une odeur insistante, mélange de cadavres et de végétaux décomposés, envahit l'habitacle.

         
 
 C'est une arche de Noé à l'échelle du pays, un sauve-qui-peut pathétique qui mêle les hommes et les animaux. Tous ont dans le regard une lueur étrange, faite de stupeur et de résignation, de ceux qui, un jour, se sont crus condamnés. Pendant des jours, ils ont cohabité en une errance bestiale, réfugiés sur un toit, agrippés à un arbre, attendant l'improbable secours. Dans la débâcle, ce sont les reptiles qui se sont montrés les plus opportunistes. Aujourd'hui encore, grimpés dans un arbre de la mangrove, ils fixent, menaçants, ceux qui prétendraient partager leur perchoir. Selon les villageois, plusieurs rescapés ont ainsi été tués par des mambas, un serpent d'autant plus redoutable qu'il épouse le vert du feuillage et que sa morsure est très venimeuse. Les groupes de singes accrochés aux branches ne sont pas moins agressifs. Dans ces régions où la malaria est endémique, les moustiques pullulent aussi, proliférant dans les eaux dormantes. Ils harcèlent les rescapés, affaiblissent leurs défenses déjà rudement mises à l'épreuve par trois semaines de lutte contre les éléments déchaînés. «Ça a commencé autour du 4 février, raconte Ricardo. Des pluies comme si le ciel nous tombait sur la tête. D'abord, on ne s'est pas inquiétés. Ici, on a l'habitude: on est régulièrement inondés. Nous avons réuni quelques affaires et nous nous sommes réfugiés sur les hauteurs. Mais l'eau a continué de monter. Et puis, vers le 20, le cyclone est arrivé et le rio Limpopo a débordé. Moi, j'ai tout perdu. Je ne sais même pas si les miens sont toujours en vie.» Au Mozambique, la loi naturelle qui veut que les calamités frappent en priorité les plus pauvres s'est une nouvelle fois vérifiée: ceux qui avaient érigé leurs huttes aux toits de palme séchée sur les terrains marécageux bordant le fleuve, les moins chers car réputés les plus dangereux, ont été emportés les premiers.
No meio da tragédia também há milagres. Rosa Pedro deu à luz a sua filha, Rosita, empoleirada numa árvore, onde se refugiou com o merido e os seus outros dois filhos durante cinco dias, sem comer nem beber.  
         
Certains ont eu le temps de démonter les pans en tôle de leur cahute pour les transformer en radeaux, sur lesquels ils dérivent toujours, gardant parfois près d'eux les corps de leurs proches morts noyés. Il y a de la fatalité dans leurs yeux. Pour ces petits paysans qui vivent de parcelles plantées de canne à sucre, de coton, de thé ou de noix de cajou, le cyclone Eline n'est rien qu'un nouvel avatar d'une longue série de catastrophes débutées après la guerre civile. Entre 1975 et 1992, elle a fait plus de 1 million de morts et laissé de terribles séquelles. Régulièrement, elle se rappelle à la mémoire des malheureux qui, dans leur champ, sautent sur une mine oubliée: il y en a ainsi plusieurs millions qui dérivent aujourd'hui au gré des courants. Personne n'a jamais tenté de les neutraliser dans les zones rurales. Le Mozambique, pays le plus pauvre du monde selon la Banque mondiale, n'en a pas les moyens. Le produit national brut (P.n.b.) par tête d'habitant n'excède pas 150 dollars (900 francs). La dette extérieure s'élevait, elle, à 5,5 milliards de dollars (33 milliards de francs) avant que le Club de Paris ne se décide à l'alléger en partie. Comme le remarque Ricardo, il n'y avait pas d'alternative: «Ici, on est bien trop pauvres pour payer autre chose que les galettes de maïs qui constituent notre ordinaire.» A Xai-Xai, petite ville paisible posée sur les rives du rio Limpopo, à l'endroit même où il se jette dans l'océan Indien après un long périple entamé au Botswana, on avait trouvé depuis quelque temps des raisons d'espérer. Après vingt-cinq ans de léthargie, l'économie locale s'était réveillée, à l'image du pays. L'Afrique du Sud, premier partenaire économique, y est pour beaucoup, qui projetait, avant la catastrophe, de développer les infrastructures, avec notamment la construction d'un axe Johannesburg-Maputo et d'un grand port dans la capitale. A Xai-Xai aussi on rêvait de réalisations portuaires capables, par exemple, d'accueillir ces paquebots que l'on voit croiser au large vers Madagascar. Depuis quelque temps, on rencontrait de plus en plus de Sud-Africains sur les berges du Limpopo. Pas seulement ces grands fermiers blancs qui, après la fin de la guerre, avaient entrepris d'acheter les meilleures terres - celles que les crues régulières du fleuve fertilisent en limon - pour les planter en coton ou en canne à sucre. Non, de vrais touristes venus de Johannesburg, où, dans les agences de voyages, les brochures vantent les dunes blanches de Xai-Xai comme une sorte de paradis terrestre.
         

Du paradis aujourd'hui il ne reste guère que le cimetière et, sur la colline, les belles maisons de notables aux couleurs pastel. La partie basse a disparu. Seul vestige, ce pont, à l'entrée de la ville, qui dressait orgueilleusement son arche de 15 mètres au-dessus du Limpopo. L'eau boueuse affleure désormais et menace à tout moment d'emporter les rares biens sauvés du déluge que les rescapés y ont entassés. Certains sont là depuis trois semaines. Exténués, vêtus de haillons, ils sont d'autant plus désespérés que beaucoup sont sans nouvelles de leurs proches. Bien sûr, il y a eu des miraculés, comme ce bébé, prénommé Rositha, né au sommet d'un arbre où Rosa Pedro, sa mère, s'était réfugiée avant qu'un hélicoptère ne la treuille. Ou comme cette vieille femme, prostrée sur la berge, que des sauveteurs portugais ont découverte dans la mangrove, accrochée depuis six jours à une branche et qu'ils ont ramenée en bateau. Terrorisés par le souffle des pales, il arrive que des rescapés refusent obstinément les filins que leur tendent les sauveteurs. D'autres, réfugiés sur le toit de leur maison, rejettent toute aide, accrochés, malgré l'évidence, à l'illusion d'une décrue. Il n'est pourtant d'autre salut que par la voie des airs: en dépit de la proximité de l'océan, la plupart des Mozambicains, à 80 % des paysans, ne savent pas nager.

Avec le temps, ceux qui sont parvenus à rejoindre le pont se sont organisés; ceux-là n'ont nulle part où aller: leurs villages ont été engloutis et ils n'ont pas de famille en ville pour les recueillir. Souvent, ils n'ont pas les moyens non plus de payer les 100 000 meticals (environ 50 francs) que le propriétaire d'un bateau exige pour les évacuer vers Maputo, là où il en coûtait cent fois moins avant le passage du cyclone.

 
 

A 27 de Fevereiro, enquanto as águas do rio Save, no norte de Moçambique, continuam a subir, uma família aguarda, numa ilhota, junto a uma árvore, que alguém os venha libertar do pesadelo.

 

Ils disent se sentir abandonnés par leur gouvernement. Dans ce pays où la paix menace de voler en éclats à chaque élection, on devine que le clivage vieux d'un quart de siècle entre les deux principaux partis, le Frelimo, marxiste, et le Renamo, financé notamment par l'Afrique du Sud, se traduit aussi par de sourdes rivalités entre les réfugiés. Regroupés par affinités électives, ils se prennent donc en charge: sur un terrain vague situé près du pont, ils ont dressé une tente dans laquelle ils entreposent leurs maigres possessions à l'abri des intempéries. Eux n'ont d'autre choix que de dormir dehors. Ils font cuisine commune. Leur seul ravitaillement: la farine de maïs que des hélicoptères, notamment français, déposent jusque dans les plus petits villages. Si loin de Paris, c'est pourtant la France qui, avec l'Afrique du Sud, s'est mobilisée la première pour leur venir en aide. Dès les premiers jours, un Transval venu de la Réunion assurait le transport du fret. Les six hélicoptères de la «Jeanne d'Arc», bateau-école de la Marine nationale qui s'était détourné de sa route entre Le Cap et Madagascar, ont ensuite été mobilisés. Depuis, une noria d'appareils de toutes nationalités sillonnent le ciel du Mozambique. Au point que son président, Joaquim Chissano, qui avait gracieusement prêté son hélicoptère privé aux secours, a pu estimer qu'il était temps désormais de récupérer son bien. 
         
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O que resta de uma manada de bois aguarda, refugiada numa ligeira elevação, que as águas acabem por descer.
Perto do Chibuto, os habitantes de uma aldeia refugiaram-se numa árvore para escapar à cheia
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Artigo extraído do "PARIS MATCH" de 8 de Março de 2000 
 
Accrochés aux arbres, les survivants du déluge usent leurs dernières forces à combattre les serpents et les singes affamés
         
Les fleuves sont sortis de leurs lits avec une rapidité et une violence telles que de nombreux petits paysans du Mozambique ont dû chercher le salut en se réfugiant dans les arbres. On estime que les eaux ont grimpé en quelques heures, selon les endroits, de 4 à 10 mètres. Quarante hélicoptères et une douzaine d'avions mis au service du pays martyr par la Communauté internationale sillonnent les étendues inondées à la recherche des derniers survivants. Maintenant, ce sont les épidémies qui menacent. Contaminée par les cadavres d'hommes et d'animaux, l'eau est impropre à la consommation. Mais il n'y a rien d'autre à boire. Cette effroyable tragédie frappe un jeune Etat qui avait déjà été durement éprouvé par une longue guerre civile. Entre 1975, date de son indépendance, et 1992, cette ancienne colonie portugaise a perdu plus de 1 de ses 17 millions d'habitants.
         
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Tendo ficado sem casa, muitas das vítimas tiveram de passar vários dias dentro de água até conseguirem encontrar refúgio.
 Uma das muitas rianças salvas pelos tripulantes dos helicópteros que a solidariedade internacional enviou para Moçambique.
O único lugar que muitas pessoas conseguiram arranjar poara se salvar foi o telhado das suas casas em ruínas