Reportagem de Joaquim Perguntas, 20/Nov/2003
Bom dia. O meu nome é Joaquim Perguntas. De momento são 8:30 da manhã e está uma grande azáfama junto ao portão principal do Campus de Gambelas. Vamos tentar saber o que se passa...
António Borgas - Eh pá, pessoal! Deixem passar. Está aqui o Joaquim Perguntas.
Joaquim Perguntas - Com licença. Eh pá, não é preciso empurrar!
A.B. - Ó Chico, está aqui um jornalista!
Francisco Fantasma - Bom dia. O senhor é jornalista?
J.P. - Sim senhor, sou o Joaquim Perguntas.
F.F. - Ora então escreva aí no seu jornal que os portões da universidade vão ficar fechados até segunda-feira. É o protesto dos estudantes contra o aumento das propinas...
Maria Quer Estudar - Dos estudantes uma ova! Nem todos os estudantes estão de acordo com esta forma de protesto. Eu precisava de entrar para acabar o meu trabalho de Base de Dados. E agora como é que vai ser?
F.F. - Não te preocupes Maria. Os profs vão ser obrigados a adiar o prazo de entrega dos trabalhos.
M.Q.E. - Mas isso não me interessa para nada. Já sei o que me espera para a semana, vou ficar com os prazos dos trabalhos todos em cima uns dos outros. Nós é que nos lixamos.
A.B. - Ó Maria, não digas disparates! Isto está a ser muita fixe. Temos um cadeado maior que os gajos de Coimbra!
J.P. - Os senhores não acham que existem formas de protesto mais adequadas? É que pode haver estudantes que queiram ir às aulas e professores que necessitem de trabalhar.
F.F. - Mas que outra forma de protesto é que o senhor acha que os estudantes podem fazer? Com este aumento escandaloso das propinas, não temos outra alternativa que não seja fechar os portões a cadeado.
J.P. - Talvez pudessem fazer uma greve às aulas. Desse modo, não prejudicavam aqueles que querem trabalhar.
F.F. - Fazer greve às aulas? Mas isso já eu faço o ano inteiro.
A.B. - Ó Chico, os profs é que têm uma sorte do caraças. Vão ficar com um fim de semana de 4 dias para andar na vadiagem. Nós é que somos uns desgraçados, vamos ter que estar aqui a trabalhar nos piquetes!
F.F. - Não faz mal Borgas. Vamos aproveitar os piquetes para ensaiarmos as cantigas para a semana académica.
Marta Lógica de Batata - O fecho dos portões até é bom para a Universidade.
J.P. - Ora diga lá porquê?
M.L.B. - É que a universidade diz que não tem dinheiro. Se estiver fechada durante estes dias sempre poupa algum em água e electricidade.
F.F. - Não está mal pensado...
M.L.B. - Uma boa ideia seria descontar o ordenado dos profs durante estes dias. Sempre era mais algum dinheiro que a universidade poupava. Desse modo, já não era necessário um aumento tão grande das propinas. Espere lá um bocadinho. O senhor não é o tal jornalista que entrevistou o Prof. Fernando Lobo?
J.P. - Sou sim senhora.
M.L.B. - Pois então escreva aí que nós os estudantes ficamos muito decepcionados com o Prof. Lobo. Ele fez transparecer a imagem de que os estudantes são todos uns bebedolas.
J.P. - Minha senhora, creio que a crítica do Prof. Lobo era mais uma crítica contra o sistema, e nada de particular com os estudantes.
M.Q.E. - O Prof. Lobo até pode ter alguma razão, mas ele só contou metade da história. É que não são só os alunos que são vadiolas. Também há muitos professores vadiolas por aí.
J.P. - Ah é...
M.Q.E. - Sim, sim. Há professores que faltam a metade das aulas e outros que demoram mais de 2 meses a corrigir os exames. Isto para não falar naqueles que dão uma aulas miseráveis e que sabe-se lá como é que conseguiram chegar a professores universitários.
J.P. - Podia me dar exemplos...
M.Q.E. - É melhor não dizer nomes. Se começo a falar depois é que nunca mais faço a disciplina.
A.B. - Mas ó Maria, também até há professores vadiolas que são porreiros. Um exemplo é o Prof. Vadiolas de Baldas. O tipo é um bacano, passa sempre toda a gente.
M.L.B. - Há um outro aspecto que o Prof. Lobo falou na entrevista que está mal explicado. Ele diz que há uma grande percentagem de reprovações, qualquer coisa como 80%. Ora aí é que está o problema. Porque é que 80% dos alunos chumbam? Será que os alunos são todos maus? Não serão antes os professores que nos estão a exigir mundos e fundos?
F.F. - Outra coisa que o Prof. Lobo explicou mal foi a questão dos alunos fantasmas. Eu sou um desses alunos fantasmas mas não sou um vadiolas. O Prof. Lobo esquece-se de que uma grande parte desses ditos alunos fantasmas são trabalhadores estudantes que necessitam de dar no duro para poder pagar os seus estudos. Eu sou um desses casos. Tenho de trabalhar e estudar.
J.P. - E hoje o senhor não tem de trabalhar?
F.F. - Hoje? Hoje... tive dispensa do emprego para poder estar aqui nos piquetes. Trata-se de um dia histórico para os estudantes da universidade e não podia deixar de ser solidário com os meus colegas.
M.L.B. - Concordo com o Chico. O Prof. Lobo tem uma visão muito deturpada das coisas. O caso dos alunos fantasmas é um exemplo flagrante. O Prof. Lobo esquece-se de que as propinas são caríssimas para os alunos fantasmas. Os coitados só cá vêm uma ou duas vezes por ano e têm de pagar tanto como os outros. Se formos fazer as contas como deve ser, os fantasmas devem estar a pagar qualquer coisa como 50 contos por dia.
F.F. - Exacto. É uma roubalheira! É por isso mesmo que estamos aqui em protesto.
J.P. - Julgo que uma das coisas de que os professores se queixam relativamente aos alunos fantasmas reside no facto de não conseguirem prever o número exacto de alunos que frequenta as aulas de laboratório, o que faz com que a gestão dos espaços e do serviço docente se torne demasiado complexa.
M.L.B. - Mas isso é simples. Na ficha de matrícula dos estudantes deveria haver algo que perguntasse se o aluno tenciona ir às aulas ou não. Os alunos que respondessem que não, os fantasmas, ficavam com um desconto nas propinas e acabava-se com o problema da gestão dos espaços e do serviço docente. Matava-se dois coelhos com uma cajadada só.
F.F. - Exactamente. A situação actual é uma grande injustiça! Os estudantes fantasmas dão 100% de lucro à Instituição e ainda por cima somos alvos de críticas por parte do Prof. Lobo.
J.P. - Senhor Francisco, uma última questão. Pensava que os fantasmas andavam vestidos de branco mas vejo que ...
F.F. - Sr. Joaquim Perguntas, isso de fantasmas brancos é nos filmes Americanos. Mas olhe que isto aqui não é o cinema. Nós somos fantasmas de capa e batina preta.