Entrevista de Joaquim Perguntas, 29/Out/2003
Bom dia. O meu nome é Joaquim Perguntas. Hoje tenho o prazer de ter comigo o Professor Fernando Lobo que gentilmente se predispôs a falar sobre as propinas, um problema que tanto tem atormentado os nossos estudantes universitários.
Joaquim Perguntas - Bom dia Professor Fernando Lobo. Que comentário tem a fazer sobre o protesto dos estudantes relativamente ao aumento das propinas?
Fernando Lobo - São protestos que não se justificam.
J.P. - Mas os estudantes queixam-se de que muitos vão deixar de poder pagar as propinas e passaremos a ter um ensino superior elitista em que só os ricos têm acesso.
F.L. -
Só os ricos?! Pobres estudantes!
O senhor sabe quanto dinheiro é que os nossos estudantes pobres gastam
por mês em telemóvel, cigarros e copos?
J.P. - Não.
F.L. - Eu também não sei. Mas tenho a certeza que ultrapassa largamente o valor mensal das propinas. Infelizmente, muitos dos nossos estudantes não sabem que 2+2=4, e também não sabem o que significa ser pobre.
J.P. - Mas os estudantes protestam de norte a sul do país. Alguma razão devem ter.
F.L. - Meu caro amigo. O que esses estudantes gostam é de não estudar. Um dia de protesto é mais um dia sem aulas, é mais um dia que acaba com copos e cantigas.
J.P. - Mas...
F.L. - Uma prova cabal de que as propinas são baratas é o elevado número de alunos fantasmas.
J.P. - Alunos fantasmas?
F.L. - Sim. Trata-se de alunos que pagam as propinas mas que nunca põe os pés na universidade, nunca aparecem às aulas, e nunca aparecem aos exames. Na Universidade do Algarve devemos ter cerca de 50% de alunos fantasmas. Por outras palavras, deitam o dinheiro das propinas para o lixo. Isso é uma prova evidente de que as propinas são baratas.
J.P. - Mas não acha que o aumento deveria ser mais gradual? Afinal de contas, em alguns casos creio que está a haver aumentos da ordem dos 50%.
F.L. - Isso faz-me lembrar o caso de muitas pessoas que vivem na Av. de Roma, em pleno coração de Lisboa, e que se queixavam quando as rendas de casa passaram de 5 para 10 contos mensais, um aumento de 100%. A questão das propinas é semelhante. Tal como o valor das rendas de casa, o valor as propinas esteve congelado durante muitos anos.
J.P. - Mas não admite que haja estudantes com dificuldades para pagar as propinas?
F.L. - Sim. Admito que haja. Mas repare que o dinheiro das propinas representa aproximadamente 10-15% das despesas mensais de um estudante. Por exemplo, um estudante que tenha de sair de casa dos pais para ir para a universidade tem de pagar renda de casa, comida, livros, transporte, etc. Em média essas despesas devem rondar uns 80-100 contos mensais. Por outras palavras, não é o facto de as propinas passarem a ser cerca de 10 contos por mês que vai fazer com que só os ricos é que possam estudar. Infelizmente, aqueles que são realmente pobres têm poucas hipóteses de estudar, com ou sem propinas. Um pobre não tem pais capazes de gastar 100 contos por mês na sua educação.
J.P. - Presumo então que é da opinião de que o aumento pecou por escasso...
F.L. - Meu caro amigo. O valor actual das propinas (mesmo após o aumento) representa um valor simbólico. Apenas dá para as despesas correntes da Universidade. Nenhuma parte desse dinheiro é usada para melhorar substancialmente as infra-estruturas da universidade, nem para pagar o salário dos professores e funcionários. A questão essencial é decidir se o ensino superior deve ser um direito que todos devem ter, e se esse direito deve ser totalmente subsidiado pelo Estado. Na minha opinião, nem todos deveriam ter acesso gratuito ao ensino superior. O Estado só deveria subsidiar o ensino superior para aqueles que merecem.
J.P. - E quem é que merece?
F.L. - São aqueles que estudam. Os que andam na vadiagem são colocados fora, ou então, pagam o preço real do ensino superior.
J.P. - E como é que isso poderia ser concretizado na prática?
F.L. - Uma forma simples seria qualquer coisa como o seguinte. Os estudantes com média superior a 16, não só não pagariam as propinas como ainda receberiam um subsídio mensal do Estado com o valor aproximado de 100 contos. Aqueles com média entre 14-16 também ficariam isentos das propinas mas apenas receberiam um subsídio mensal de 50 contos. Esse valor poderia ser usado para ajudar o estudante a pagar as despesas de renda de casa, alimentação, livros, e até mesmo para os copos e noitadas. Os estudantes com média inferior a 14, mas que passam às disciplinas à primeira, pagariam propinas com o valor simbólico de cerca de 150-200 contos anuais. Os outros, aqueles que chumbam sistematicamente, teriam de pagar o custo real do ensino, qualquer coisa como 1500-2000 contos anuais.
J.P. - Humm...
F.L. - Uma abordagem deste tipo é interessante porque dá incentivo para que os estudantes estudem. Além disso, seria socialmente justo. Aí sim, todos teriam acesso ao ensino superior, incluindo os que são realmente pobres. Seria uma espécie de medida à Robin dos Bosques. A diferença é que em vez de tirar aos ricos para dar aos pobres, tira-se aos calões para dar aos que estudam.
J.P. - Mas será que o senhor não está a exagerar. Pelas suas palavras, fico com a impressão de que a maioria dos alunos anda na vadiagem.
F.L. -
Bom. Se não andam, parece.
O que acontece é o seguinte. 10% dos alunos têm realmente interesse
em aprender. Dos outros 90%, uma parte anda na vadiagem e a outra parte
até se esforça mas não vai lá. Como lhe disse, alguns chegam à universidade
sem saber que 2+2=4. É impossível transformar esses alunos em Engenheiros.
É como se quiséssemos transformar pessoas com 150kg em sprinters de 100m.
J.P. - Que justificação é que encontra para a existência desse tipo de situação? Será que os nossos governantes não se apercebem do problema?
F.L. - Não faço a mínima ideia. No que diz respeito ao ensino superior, fico com a impressão de que os sucessivos governos que temos tido estão essencialmente interessados nas estatísticas.
J.P. - Estatísticas?
F.L. - Sim. Estão interessados em dizer que estamos ao nível dos outros países europeus em termos de licenciados.
J.P. - E não é da opinião de que devemos ter mais licenciados?
F.L. - Sim, desde que sejam licenciados competentes. Não interessa termos engenheiros que fazem pontes que caem, nem licenciados em matemática que dizem que 0.9 = 1/9. O nosso Estado investe em quem não merece. Já reparou que o Estado investe nos estudantes vadiolas, mas não investe num estudante que tem média de 16 e que quer estudar medicina?
J.P. - Realmente tem razão.
F.L. - Sabe porque é que isso acontece?
J.P. - Não.
F.L. - Eu também não. Mas suspeito que um estudante de Medicina é capaz de custar ao Estado dez vezes mais do que um estudante de Literatura. Um necessita de equipamento caro, o outro necessita de papel e lápis. Mas para as estatísticas ambos contam o mesmo. Do ponto de vista de quem faz contas de merceeiro, é mais um licenciado.
J.P. - Voltando à sua ideia de tirar aos calões para dar aos que estudam. Não receia de que num cenário desses a universidade fique com muito poucos alunos?
F.L. - Infelizmente sim.
J.P. - E havendo poucos alunos, ficava com professores a mais, certo?
F.L. - Infelizmente sim.
J.P. - E se calhar o senhor ficava sem emprego.
F.L. - Provavelmente sim.
J.P. - E o senhor não tem receio disso?
F.L. -
Sim. Um bocadinho.
J.P. - Mas então o senhor parece que está a dar um tiro nos pés. Não era melhor estar calado?
F.L. - Pode ser que seja um tiro nos pés. Mas não consigo ficar calado perante situações absurdas. Um exemplo de uma situação absurda é o facto de muitas universidades portuguesas necessitarem de alunos fantasmas e de alunos vadiolas para sobreviver. São esses pseudo-estudantes que justificam o ordenado de muitos professores, incluindo o meu próprio.
J.P. - Está a querer dizer que o Estado investe mal o dinheiro no ensino superior?
F.L. - Sim. Vou lhe dar mais um exemplo que mostra como gerimos mal o tempo e o dinheiro que temos.
J.P. - Ora diga lá.
F.L. - No departamento de Computer Science da Universidade de Illinois (onde tive o privilégio de estudar), os professores reunem-se 1 vez por semestre, nós reunimo-nos 1 vez por semana. Os professores em Illinois dão cerca de 3-4 horas de aulas por semana, nós damos cerca de 9-10 horas. O departamento em Illinois tem 60 professores, nós na ADEEC temos 30. O departamento em Illinois produz 250 novos licenciados todos os anos, nós produzimos meia-dúzia.
J.P. - Mas como...
F.L. - Trabalhamos muitas horas mas produzimos aproximadamente zero. É óbvio que existe algo de estruturalmente errado no nosso ensino universitário.
J.P. - Desculpe que lhe diga, mas tenho a sensação de que o senhor é um profeta da desgraça.
F.L. - Antes fosse. Se fizesse profecias da desgraça era sinal que ainda não estavamos na desgraça. Infelizmente, o estado actual do ensino superior em Portugal já é uma desgraça.
J.P. - Os professores não debatem esses problemas internamente, nas comissões e conselhos científicos?
F.L. - Nas raras oportunidades que tive de exprimir ideias neste sentido, sinto que a grande maioria olha para mim como se fosse um extra-terrestre com ideias radicais. O que acaba por ser tratado nas reuniões internas são meros assuntos curriqueiros. Gastamos imenso tempo em reuniões mas raramente se debate assuntos realmente importantes.
J.P. - Pode ser mais concreto?
F.L. - Dou-lhe um exemplo. Por vezes gasta-se 2-3 horas a discutir vírgulas e pontos-e-vírgulas em regulamentos. Se calhar iríamos gastar 2-3 horas a debater se o termo "vadiolas" não deveria ser substituído pela expressão "estudantes menos sucedidos no ensino".
J.P. - Ah é?
F.L. - É sim senhor. Mas prefiro não me pronunciar mais sobre os órgãos universitários. Se começo a falar muito ainda alguém se lembra de me colocar um processo em tribunal.
J.P. - Bom, a nossa conversa está interessante mas já vai longa. Uma última pergunta. Tem alguma coisa contra os copos e cantigas?
F.L. - Não. Gosto muito de cantigas e sou apreciador de um bom copo de vinho.
J.P. - Obrigado pelo tempo dispensado. Falaremos sobre outros aspectos da vida universitária numa próxima oportunidade.
F.L. - Obrigado eu. Até à próxima.