Relendo Camões

Vejo ainda coisas por dizer: em cada mudança

não somos já quem costumávamos: e quando mudamos,

é quem fomos que fica ainda por mudar. Um ser pode

ser tudo o que quisermos, se o tempo o deixar;

mas não será outro se entre ontem e hoje

se não souber transformar: pois é o desejo,

mais do que a fortuna, que faz com que sejamos

amanhã o que hoje não esperamos ser; a não ser

que o amor nos prenda à sua sorte constante. Então,

de dentro da alma, o sereno rosto procura novas

inquietações; e o teu riso o desperta de entre dias

e estações, convidando-o para a vida que é assim:

feita de mudança, quando tudo vai ficar;

e insistindo em ser o que tinha que mudar.

 

Nuno Júdice